Pré-eclâmpsia

Pré-eclâmpsia

Pré-eclâmpsia: a ameaça silenciosa que ainda desafia a medicina e coloca mães e bebês em risco

No Dia da Conscientização da Pré-eclâmpsia (22/5), especialista detalha os riscos, os sinais de alerta e as estratégias de prevenção que podem salvar vidas.

Ela atinge entre 3% e 8% das gestações no Brasil. Em países em desenvolvimento, como o nosso, a incidência pode ser até quatro vezes maior do que em nações mais ricas. Na América Latina, responde por cerca de 20% a 25% das mortes maternas. E, segundo dados do Ministério da Saúde, está por trás de aproximadamente 82 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos.

Os números ajudam a dimensionar um problema que, apesar de conhecido e monitorado, ainda representa uma das principais ameaças à saúde de mães e bebês: a pré-eclâmpsia.

É com esse pano de fundo que o Dia de Conscientização da doença, em 22 de maio, ganha ainda mais relevância. Não se trata de uma condição rara, tampouco simples. Como explica a ginecologista e obstetra Angelica Debs, especialista em medicina fetal e gravidez de alto risco e integrante da diretoria da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), a pré-eclâmpsia é uma doença complexa, multifatorial e muitas vezes imprevisível.

“Ela não é apenas pressão alta na gravidez. É uma síndrome que pode comprometer vários órgãos da mulher e também o desenvolvimento do bebê”, afirma. O diagnóstico começa com a elevação da pressão arterial — acima de 140 por 90 mmHg — após a 20ª semana de gestação em uma paciente que antes não era hipertensa. Mas não para por aí.

“Antigamente, o inchaço era um critério, e a perda de proteína na urina era obrigatória para o diagnóstico. Hoje, o conceito é mais amplo e foca nos sinais de danos a órgãos-alvo, o que torna o diagnóstico mais complexo e reforça a necessidade de acompanhamento “, explica a médica, acrescentando que alterações laboratoriais, sinais de lesão em órgãos como fígado e rins, ou indícios de insuficiência placentária já são suficientes para caracterizar o quadro.

A placenta, aliás, está no centro da doença. Quando não se desenvolve adequadamente, passa a funcionar de forma insuficiente, comprometendo a chegada de nutrientes e também de oxigênio ao feto. “É como se fosse o pulmão do bebê. Se ela falha, todo o sistema é afetado”, resume. O resultado pode ser dramático: bebês com restrição de crescimento, maior risco de sofrimento fetal, prematuridade e até morte intrauterina.

Um inimigo com muitas faces

A pré-eclâmpsia também desafia pela forma como se apresenta. Não existe um único padrão. Algumas pacientes têm hipertensão evidente; outras manifestam apenas alterações silenciosas em exames laboratoriais, como elevação de enzimas hepáticas, queda de plaquetas ou complicações pulmonares. Essa variabilidade dificulta o diagnóstico e reforça a importância do acompanhamento contínuo.

Hoje, a classificação da doença não fala mais em “leve” ou “grave”, mas em pré-eclâmpsia precoce — antes de 34 semanas, geralmente mais agressiva — e tardia, que responde por cerca de 70% dos casos. Há ainda os quadros que surgem já a termo, após 37 semanas. Em qualquer uma dessas formas, o risco existe.

No extremo mais grave está a eclâmpsia, quando a paciente desenvolve convulsões causadas por alterações cerebrais. É uma emergência médica. Sintomas como dor de cabeça intensa, alterações visuais e dor epigástrica podem ser sinais de alerta. Sem intervenção rápida, o risco de morte materna e fetal é real.

O impacto da doença não termina no parto. Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia carregam um risco aumentado, ao longo da vida, para hipertensão crônica, síndrome metabólica e acidente vascular cerebral. As mulheres também podem enfrentar sequelas neurológicas — um aspecto ainda pouco visível nas estatísticas.

Prevenção: as etapas que salvam vidas

Apesar da gravidade, grande parte dos casos pode ser evitada ou controlada com diagnóstico precoce. O pré-natal é a principal ferramenta. Ainda no primeiro trimestre, é possível identificar mulheres com maior risco por meio da história clínica, da aferição da pressão arterial e de exames como o Doppler das artérias uterinas.

Nesses casos, o uso de aspirina em baixa dose, iniciado antes da 16ª semana, pode reduzir drasticamente a incidência, especialmente das formas mais graves. O controle do ganho de peso e a prática de atividade física regular também são fatores de proteção importantes.

Mas a realidade ainda está aquém do ideal. “São mortes evitáveis”, reforça a especialista. “Precisamos melhorar o acesso ao pré-natal de qualidade, investir em diagnóstico e ampliar políticas públicas.”

Vivência e motivação

É justamente esse cenário que move a atuação e a pesquisa de Angelica Debs há mais de duas décadas. Com apoio do CNPQ, ela investiga novas formas de prever a doença antes que ela se manifeste clinicamente. Uma das frentes mais promissoras é o estudo do Doppler da artéria oftálmica, um exame capaz de identificar alterações vasculares precoces na gestante.

Mas o envolvimento com o tema não é apenas científico. É também pessoal. A médica viveu, na própria pele, a experiência da pré-eclâmpsia durante a gravidez da segunda filha, que nasceu prematura, com restrição de crescimento, e precisou de cuidados intensivos. “Foi uma experiência muito difícil, mas que me motivou a estudar a doença e ajudar outras mulheres a não passarem pelo mesmo”, relata.

Histórias como essa ajudam a traduzir o que os números mostram: a pré-eclâmpsia não é apenas uma estatística. É uma condição que atravessa vidas, famílias e sistemas de saúde. E que, apesar de conhecida, ainda exige atenção constante.

Diante de uma doença silenciosa e potencialmente devastadora, ignorar os sinais não é uma opção. “Diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e acesso à informação podem fazer a diferença entre uma gestação saudável e um desfecho grave”, reforça a especialista. “Neste 22 de maio, a conscientização é o primeiro passo para mudar essa realidade”.

Sobre a Sogimig

A Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais é uma entidade filiada à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Possui cerca de 2.000 associados e trabalha para a atualização científica e para a defesa e a valorização dos profissionais da área.

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