Sogimig capacita médicos

Sogimig capacita médicos

Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+

Preconceito, desinformação e barreiras estruturais ainda dificultam acesso à saúde ginecológica

SOGIMIG capacita médicos e alerta para mitos que afastam população LGBTQIAPN+ dos consultórios

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, é um marco histórico de luta por direitos e igualdade. Na área da saúde, a data levanta um debate urgente e necessário: como garantir que o acesso aos cuidados ginecológicos e obstétricos seja, de fato, universal, seguro e livre de preconceitos? Para a Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (SOGIMIG), a resposta começa pela educação médica e pela quebra da heteronormatividade dentro dos consultórios.

Foto: imagem gerada por inteligência artificial.

Apesar dos avanços recentes, as barreiras ainda são reais. Para o médico e membro da diretoria da Sogimig, Eduardo Siqueira, o preconceito — seja ele explícito ou velado — é o primeiro grande obstáculo. “Muitas pessoas LGBTQIAPN+ relatam experiências de discriminação, julgamentos morais e questionamentos sobre sua identidade de gênero, orientação sexual ou configuração familiar. Tudo isso gera insegurança e pode afastar essas pessoas dos serviços de saúde”, afirma.

Além das atitudes discriminatórias, existem barreiras institucionais que muitas vezes passam despercebidas. Formulários que não contemplam diferentes identidades de gênero, dificuldades para registrar o nome social e limitações em sistemas de atendimento ainda fazem parte da rotina de diversos serviços.

“Em muitos casos, os próprios sistemas não estão preparados para atender às necessidades dessas pessoas. Um homem trans que possui colo do útero, por exemplo, pode encontrar dificuldades até mesmo para realizar um exame preventivo por causa da forma como o serviço foi estruturado”, explica o especialista.

O que faz um atendimento ser verdadeiramente acolhedor?


Para Eduardo, a premissa básica do cuidado é o reconhecimento do indivíduo como uma pessoa única. O acolhimento começa em atitudes que devem ser o padrão da prática médica: respeitar a identidade e a expressão de gênero, utilizar o nome social e os pronomes adequados e praticar uma escuta qualificada.

“Não devemos presumir orientações sexuais, práticas, desejos reprodutivos ou configurações familiares com base apenas na aparência. O foco deve estar nas necessidades da pessoa, criando um ambiente seguro para que ela possa relatar suas questões”, pontua o especialista.

Derrubando mitos que colocam a saúde em risco

Segundo o diretor da SOGIMIG, a desinformação ainda afasta muitos pacientes dos consultórios ou gera negligência com cuidados vitais. Ele elenca e desmistifica os principais equívocos:

  • Mulheres lésbicas e o Papanicolau: É um mito perigoso acreditar que mulheres cisgênero que fazem sexo com outras mulheres não precisam de rastreamento para o câncer de colo de útero ou infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). “A indicação do preventivo depende da presença do colo do útero e de relações penetrativas. Além disso, elas precisam ser rastreadas para ISTs pelo menos uma ou duas vezes ao ano”, orienta.
  • Homens Trans: Homens trans e pessoas transmasculinas que possuem vulva, vagina e colo do útero precisam manter o rastreamento ginecológico. O médico faz um alerta fundamental: “O uso da testosterona não evita o câncer de colo de útero e não é um método contraceptivo. Se houver relações com risco de gravidez, é preciso associar um método anticoncepcional adequado”.
  • Mulheres Trans e Travestis: Também precisam de acompanhamento ginecológico, especialmente para o cuidado com as mamas e o rastreamento do câncer de mama na idade adequada, após o desenvolvimento mamário.

Saúde sexual e a formação de novas famílias

No campo da saúde sexual e reprodutiva, a SOGIMIG destaca a importância da “prevenção combinada”, que inclui o uso de preservativos, profilaxias como PrEP e PEP, a inclusão da DoxyPEP (profilaxia para evitar sífilis, gonorreia e clamídia em populações específicas) e a vacinação contra o HPV e as Hepatites A e B.

Outro ponto de avanço nos consultórios ginecológicos e nas clínicas de reprodução assistida é o debate sobre a parentalidade. “As configurações familiares são diversas. Ouvir os desejos reprodutivos, orientar sobre a preservação da fertilidade antes de terapias hormonais ou cirurgias de afirmação de gênero, e planejar a gestação são partes essenciais da assistência”, ressalta o Eduardo.

Formação médica: um desafio que ainda precisa avançar


Embora a discussão sobre diversidade sexual e de gênero esteja cada vez mais presente na sociedade, a formação dos profissionais de saúde ainda enfrenta desafios para abordar o tema de forma ampla e estruturada. Segundo o médico, muitos cursos de graduação e programas de especialização ainda oferecem pouco espaço para a discussão das necessidades específicas da população LGBTQIAPN+, o que pode impactar diretamente a qualidade da assistência.

Por outro lado, ele destaca avanços importantes, como o aumento da produção científica voltada à saúde dessa população, a criação de protocolos mais inclusivos, o fortalecimento de serviços especializados e o crescimento do debate sobre parentalidade e diversidade familiar dentro da ginecologia e da obstetrícia.

Como parte desse compromisso com a educação médica continuada, a SOGIMIG oferece em seu portfólio o curso Atenção Médica à Diversidade de Gênero. A iniciativa busca capacitar profissionais para um atendimento ético, inclusivo e baseado em evidências científicas, contribuindo para que a diversidade sexual e de gênero seja incorporada de forma cada vez mais natural e qualificada na prática clínica.

“Ninguém deve abrir mão de cuidar da própria saúde”


Para pacientes que já sofreram discriminação ou deixaram de procurar atendimento por medo de experiências negativas, o membro da diretoria da SOGIMIG reforça uma mensagem de acolhimento e destaca que o cuidado com a vida deve ser sempre a prioridade.

“A saúde é um direito constitucional de todas as pessoas. Ninguém deve abrir mão de cuidar de si mesmo por medo de sofrer preconceito. Precisamos reconquistar essas pessoas, mostrando que cada vez mais profissionais e instituições estão comprometidos com uma assistência ética, inclusiva, individualizada e baseada em evidências. Nós, ginecologistas e obstetras, temos a competência e a capacidade para promover essa inclusão de forma digna. Seus corpos, suas identidades e suas histórias merecem respeito”.

Sobre a SOGIMIG
A Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais é uma entidade filiada à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Possui cerca de 2.000 associados e trabalha para a atualização científica e para a defesa e a valorização dos profissionais da área.

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Contato para imprensa:
Flávio Amaral

Assessoria de Imprensa Sogimig
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